Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

172º CAFÉ FILOSÓFICO_CAIS


Desde há alguns meses que um amigo do Café Filosófico, o Rui Lopes, tem dinamizado uma nova Comunidade Filosófica com os utentes da CAIS.
Na última terça-feira convidou-me para moderar um desses diálogos o que aceitei com imenso prazer. 
O que encontrei foi uma comunidade já amadurecida, com gente interessada em dialogar e em escutar-se mutuamente e não apenas em exprimir o seu ponto de vista e mostrar que tem razão.
Um grande abraço para todos os que estiveram presentes nesta sessão e felicidades para o crescimento dessa vossa Comunidade de Filósofos.

Desafio lançado ao grupo no início da sessão: 
- Qual a Pergunta mais Fundamental?

Algumas sugestões: 
- O que é ser Feliz?
- Como ser Feliz?
- Há vida depois da morte?
- A alma serve a ciência?

Pergunta votada como a mais fundamental:
- Deus Existe?

Até à próxima!


Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

158º CAFÉ FILOSÓFICO_FILOSOFAR A PARTIR DE (QUASE) NADA II


158º CAFÉ FILOSÓFICO - BIBLIOTECA MUNICIPAL DE GONDOMAR

Filosofar não é simplesmente partir dos problemas filosóficos já existentes e procurar dar-lhes respostas. Filosofar é, também, reflectir sobre o "dado", o real, e encontrar no aparentemente óbvio e simples o problemático e o complexo. Filosofar é, sobretudo, problematizar, encontrar problemas.

Este exercício filosófico começa por pedir aos participantes uma interpretação "filosoficamente rica" de um simples desenho no quadro (um círculo com traços em redor).

Entre as várias sugestões o grupo escolheu a seguinte:

- "O cimo de um poço."

A partir daqui procurou-se perceber de que forma é que "o cimo de um poço" nos pode trazer alguma riqueza filosófica.

Entre as várias propostas o grupo escolheu a seguinte:

- O poço representa o Bem e o Mal nas pessoas. 
A escuridão no interior do poço representar o Mal e a luz no exterior representa o Bem.
O "cimo do poço" seria a linha divisória entre o Bem e o Mal.





Explicada a metáfora procurou-se encontrar alguns dos problema que esta escondia.
Dois desses problemas prenderam a atenção do grupo:

- Existe uma fronteira clara entre o Bem e o Mal?

- Quando é que tomamos consciência de que estamos do lado do Mal?

O segundo problema foi o escolhido pela "comunidade filosófica" da Biblioteca Municipal de Gondomar para iniciar um próximo Café Filosófico.






157º CAFÉ FILOSÓFICO_FILOSOFAR A PARTIR DE (QUASE) NADA I


157º CAFÉ FILOSÓFICO (E-LEARNING CAFÉ, PORTO)

Ao contrário do que acontece em outros eventos culturais quem vai a um Café Filosófico não vai lá para ser servido mas para servir. Num Café Filosófico a filosofia e o filosofar estão totalmente a cargo dos participantes e não do moderador que não faz as vezes de "filósofo de serviço" mas de árbitro que zela pelo cumprimento das regras do "jogo filosófico".

Normalmente o problema filosófico é proposto no início de cada sessão (pelo moderador ou pelo grupo) mas este Café Filosófico no E-Learning foi diferente. 

Filosofar a partir do (quase) nada foi o desafio lançado à nossa "comunidade filosófica".

Um desenho no quadro: Uma seta da direita para a esquerda (do ponto de vista do observador); 0 e 2013 no início e no fim da seta.
Uma pergunta: "O que significa?" 

Depois de todos lerem as suas interpretações da "seta" escolheu-se aquela que o grupo (por votação) considerasse "filosoficamente mais rica".

"Aquilo que cada um estiver condicionado a interpretar" 
foi a interpretação escolhida pelo seu carácter abrangente, provocador, profundo, dialéctico (algumas das características filosóficas apontadas pelos participantes).

Com esta interpretação filosófica à nossa frente cabia agora ao grupo levantar-lhe um problema (Problematizar) na forma de uma pergunta por forma a descobrirmos alguma perplexidade filosófica por detrás dela. 
Entre os vários problemas levantados escolheu-se o seguinte:
"Toda a interpretação é apenas fruto de condicionamentos?"

Já íamos com uma hora e meia de Café Filosófico quando finalmente encontrámos a pergunta filosófica que nos ia ocupar durante a sessão (é preciso fôlego para se fazer filosofia) e a partir daqui o Diálogo desenrolou-se de uma forma mais livre (menos estruturada) com os participantes a poderem intervir da forma que quisessem desde que classificassem o que iam dizer (uma pergunta, uma crítica, um esclarecimento, etc.) e mantivessem as suas intervenções breves e claras.
Definiu-se, argumentou-se, refutou-se, exemplificou-se e contra-exemplificou-se. Exploramos uma parte significativa do arsenal filosófico e ainda tivemos tempo para descobrir o que são "marquises filosóficas" (acrescentos a teorias), "argumentos salmão fumado" (argumentos irrelevantes) e "síndromes Titanic" (afundar-se teimosamente numa contradição).


Terça-feira, 5 de Março de 2013

144º CAFÉ FILOSÓFICO - O FUNDAMENTO DO BEM E DO MAL



Um Café Filosófico é um espaço de reflexão em conjunto, uma oportunidade para ouvir os outros e, dessa forma, conhecermos outras perspectivas sobre um problema. Um Café Filosófico é também uma oportunidade rara de deixar que os outros mudem a forma como pensamos.
Normalmente estamos tão seguros das nossas ideias, valores e crenças que nos achamos na obrigação (moral ou pedagógica) de as transmitir aos outros e de os convencer de que temos razão. Muitas vezes à custa apenas da repetição exaustiva dessas mesmas ideias, valores ou crenças sem que nenhum outro argumento ou justificação seja avançada, como que acreditando que a mera exposição prolongada servirá para converter os outros à nossa verdade.

Julgo que o texto da Chantal que vos deixo em baixo é a expressão de algum desapontamento face a essa atitude tão comum nos Cafés Filosóficos (comum porque "demasiado humana") de se querer ouvir mais que ouvir os outros. 
Um dos objectivos destes Cafés Filosóficos é, exactamente, cultivar uma certa Pedagogia do Diálogo numa cultura onde prevalece o Monólogo.




«É belo escrever porque assim se juntam duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão» (Cesare Pavese). Este pensamento levou-me a um mundo imaginário onde todas as pessoas nasciam sem língua. Bocas grandes com lábios finos e destreinados.
Nesse mundo imaginário, os antigos desenhavam aos mais novos, com letras esculpidas, um mundo desaparecido no qual as pessoas diziam tudo o que lhes passava pela cabeça, a toda a hora.
O relato parecia realmente absurdo e gerara uma série de pesadelos. Durante a noite, as bocas grandes abriam-se para deixar escorrer uma língua longa e rugosa. Sobressalto seguido de alívio ao descobrir que, afinal, a boca estava a salvo, sem qualquer vestígio do nauseabundo músculo indesejado.
Eu não nasci no mundo dos sem línguas e penso por vezes no (des)uso que dou à minha. Quando falo, onde reside a alegria? Na partilha de pensamentos com os outros ou na vaidade de me ouvir? Se a minha língua se visse ao espelho, o que acharia? Francamente nunca a confrontei talvez por temer que ela me cale para sempre.
- Vou engolir-te.
Durante o último Café Filosófico imaginei as línguas que se tentavam empurrar em busca de espaço.
- Vou engolir-te.
Por entre os parcos silêncios, o rebuliço de línguas. Activas, vivas, impacientes, altivas, achadas, perdidas, rendidas...
- Vou engolir-te
Qual é afinal o fundamento do bem e do mal?
Mais línguas. Activas, vivas, impacientes, altivas, achadas, perdidas, rendidas...
As mais sacras dirão que se trata de um chamamento interior, um voto de abnegação em prol dos outros que estão aí para ouvir. Falar até que nos doa. Falar até que vos doa.
- Vou engolir-te...
Alojo-me então num canto da minha garganta seca. Em redor, elas continuam activas, vivas, impacientes, altivas, achadas, perdidas, rendidas...
Num derradeiro esforço, tento engoli-la. Tornar-me uma das sem línguas e partilhar o reino do pensamento pacientemente esculpido.

Chantal 

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

COMO CRIAR UMA COMUNIDADE FILOSÓFICA NA TUA RUA


"Os limites do meu grupo são os limites do meu pensamento"


O que é uma Comunidade Filosófica

Uma Comunidade Filosófica é constituida por um número indeterminado de pessoas que se reúnem regularmente com o único fim de melhorar a forma como pensam e dialogam umas com as outras.
Fazer parte de uma Comunidade Filosófica implica uma preferência pelo Diálogo Racional a outras formas mais comuns de pensamento e conversação como o discurso auto-justificativo e adulatório em que a preocupação está mais em insuflar e blindar o ego que em compreender e descobrir a verdade acerca de algum assunto. Numa Comunidade Filosóficanão há também lugar à omnipresente conversa da treta onde o papaguear de frases feitas e códigos sociais ou tribais partihados se substitui à reflexão genuína que cada um deve fazer por si mesmo.
Leia mais em Viral Agenda.com

Domingo, 2 de Dezembro de 2012

137º CAFÉ FILOSÓFICO (QUATRO ANOS) - A AMIZADE




Há umas semanas atrás um dos participantes num Café Filosófico sugeriu uma questão para discussão que, na altura, foi ignorada pelo grupo. "Se eu cair levantas-me?" foi a pergunta sugerida pelo Filipe Louro.
Eu próprio não achei esta pergunta interessante e não procurei que o grupo a aprofundasse. No entanto talvez por ser uma pergunta um pouco estranha ficou-me na cabeça desde então e frequentemente dava por mim a voltar a ela mais para tentar perceber a sua intenção e significado que para lhe tentar responder.
Vejo agora que ignorar essa pergunta foi um erro pois era uma pergunta nos poderia levar a pensar sobre conceitos que a todos nos dizem muito como solidariedade, amor, amizade, ajuda, etc. E foi a nossa tendência para evitar o "estranho" e procurar o "normal" que nos fez abdicar desta pergunta e escolher outra mais convencional.

Umas semanas mais tarde, num outro Café Filosófico, falou-se da Amizade que deve existir sempre que dois seres humanos se encontram para dialogar pois não há diálogo entre duas pessoas que se ignoram ou se odeiam. E ao pensar nisso essa estranha pergunta do Filipe voltou-se a apresentar ao meu espírito. Essa pergunta fez-me ver que qualquer ser humano que veja alguém cair à sua frente, mesmo um desconhecido, sentirá um impulso para o ajudar a levantar-se. Na realidade poderá não o fazer por inúmeros motivos, mas acredito que esse impulso está presente em todos nós e, acredito também, é sinal de que há um sentimento comum que une todos os seres humanos e que nos leva a querer instintivamente ajudar o próximo. Por que não chamar a esse sentimento Amizade? Essa pergunta fez-me ver que a Amizade pode ser uma coisa efémera e episódica, como uma onda no mar que apenas passa por nós uma vez mas que nos afecta e marca de determinada maneira. Um amigo pode ser assim como uma onda que passa por nós uma vez e nunca mais volta a passar, mas naquela passagem, naquele curta presença, com ou sem diálogo, foi nosso amigo.

Pensava nisso e pensava também nas centenas de amigos que, como ondas, passaram pelo Café Filosófico nos últimos quatro anos. Aqueles que quase sempre regressam quando o fazem já não são os mesmos, são sempre outras ondas quando regressam. E mesmo aqueles que só nos procuraram uma vez e não mais voltaram, também esses foram nossos amigos enquanto mantiveram a disposição de dialogar. Esses apenas deixaram de ser nossos amigos até ao próximo Café Filosófico, quando nos procurarem de novo para dialogar. Lá estaremos à sua espera.

A Chantal é uma daquelas ondas que insiste em bater na praia e regressar uma e outra vez ao Café Filosófico. É uma amiga que esteve em muitos dos nossos encontros e, talvez por isso, tenha a sensibilidade apurada para as pequenas grandes coisas que se passam num Café Filosófico. Essas "pequenas grandes coisas" são aquelas que normalmente existem nos interstícios da discussão principal e que pouca gente dá por elas mas que são verdadeiramente o que dá um sabor especial e único a cada Café Filosófico. Neste último Café Filosófico a Amizade foi uma dessas "pequenas grandes coisas".

Deixo-vos a prenda que a Chantal nos deu a todos do Café Filosófico pelo nosso 4º Aniversário.
Um pequeno texto sobre o "tempero das palavras" que tanto valorizamos nos Cafés Filosóficos e uma imagem do "caminho que ainda temos a percorrer."
Não sei se a Chantal pensa assim, mas para mim aquela é uma montanha que nunca iremos escalar. O caminho é demasiado bom para o deixarmos para trás!




Chantal Guillonato
«O que sabemos: palavras; o que sonhamos: palavras; o que sentimos:
palavras; e a nossa própria boca que fala é, também ela, só uma frágil
e insegura palavra» (M.A. Pina).
Ditas às escuras, com pausas estreladas, ou à luz de um terceiro
andar. Palavras. Irrequietas, impacientes, teimosas, velozes.
Palavras. Tantas vezes trincadas em prol de uma maltratada fome de
conhecimento. Palavras. Que observadas de perto, são formas vivas, com
contornos por definir. Quatro anos em que me/nos tens ajudado Tomás. A
trepar métodos e pensamentos. A temperar palavras. Gosto cada vez mais
delas, sobretudo as silenciosas. As que nos vão trepando pelo corpo à
procura de uma saída de emergência. Fecha-te Sésamo. Palavras. Que
presas ganham, com o passar do tempo, um sabor especial a impulso
sublimado.
Palavras. Que dançam quando bem conduzidas. Gosto cada vez mais dos
passos. Palavras. Que vão ficando em segundo plano. Quem diria.
Palavras. Que caminham sem pressa de chegar.
«Acontece assim nos sonhos. Temos medo e sonhamos com a esfinge. A
verdade, porém, não é a esfinge, a verdade é o medo; a esfinge é só a
imprecisa forma do nosso medo» (M.A. Pina).
Obrigada Tomás por seres nosso amigo.

Chantal

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

4º ANIVERSÁRIO DO CAFÉ FILOSÓFICO



Dia 30 de Novembro de 2008 às 16h00 no extinto Clube Literário do Porto. Foi aí que demos o nosso primeiro passo, o primeiro Café Filosófico. 
Pode ler sobre essa primeira sessão aqui.

Na próxima quinta-feira às 21h30 no espaço Yoga sobre o Porto celebramos quatro anos a filosofar pela cidade, em cafés, museus, bibliotecas, praças, jardins, etc.

Apareça!

Sábado, 24 de Novembro de 2012

CAFÉ [FILOSÓFICO] COSMOLÓGICO - O SILÊNCIO


O Universo é Livre?


 


Foi esta pergunta que despoletou o Diálogo Filosófico da última Quinta-Feira sob o céu estrelado do Planetário do Porto.

A escuridão quase total em que nos encontrávamos e o silêncio que os participantes tinham que respeitar entre as intervenções de cada um fizeram sobressair as suas palavras que iam ecoando na cúpula do planetário como se de verdades cósmicas se tratassem.

Acredito que, como eu, também os outros 24 participantes deste Diálogo sentiram que por momentos flutuavam sozinhos entre estrelas e ideias filosóficas que iam passando e nos impressionando de forma mais ou menos intensa.
De todos os Cafés Filosóficos que realizámos (este mês fazemos 4 anos) este foi aquele em que melhor ser percebeu a importância do silêncio para o Diálogo e para o Pensamento. É no silêncio que tanto um como o outro se melhor se desenvolvem. 

Julgo que, graças ao silêncio e ao cenário que nos foi imposto, todos saímos deste Café Filosófico um pouco mais pequeninos.

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Is the Universe Free?

This was the question that triggered the Dialogue of our Philosophical/Cosmological Coffee last Thursday under the starry sky of Oporto Planetarium.

The total darkness in which we found ourselves and the silence that participants had to observe between interventions highlighted every word that echoed in the dome of the planetarium as if they were cosmic truths.

I'm sure that, like myself, the other 24 participants felt they were floating in the Comos among stars and philosophical ideas.

This was the Philosophical Coffee where we realized the true importance of silence to deepen Dialogue and Thought. 

I believe that, thanks to the silence and the scenery that was imposed on us, we all come out of this Dialogue feeling a lot smaller than before. 

Tomás Magalhães Carneiro – Oporto Philosophical Club 






Estes Cafés [Filosófico] Cosmológicos são organizados pelo Clube Filosófico do Porto e pelo Centro de Astro-Física da Universidade do Porto. A próxima sessão será no dia 13/12/12 e já se encontra esgotada. Para se inscrever para uma nova sessão envie um mail para clubefilosoficodoporto@gmail.com



Sábado, 29 de Setembro de 2012

127º CAFÉ FILOSÓFICO - RESPEITAR O SILÊNCIO





Café Filosófico no Yoga sobre o Porto - Respeitar o Silêncio

"Respeitar o Silêncio" é um exercício de Diálogo Filosófico de inspiração monástica em que se recorre ao silêncio, imposto ao grupo através de uma regra muito simples, para atenuar os efeitos emocionais que algumas intervenções e atitudes muito comuns num Diálogo costumam suscitar nos participantes.
Todos nós já vimos alguém reagir a uma crítica a uma ideia sua como se de um ataque pessoal se tratasse e é até bastante provável que o leitor já tenha sentido algumas vezes esse incómodo em ser criticado pelos outros. 
Normalmente essa reacção quase compulsiva costuma espoletar no sujeito (em nós e nos outros) uma procura de razões com o único propósito de "blindar" o melhor possível a sua posição. No entanto, se quisermos ser intelectualmente honestos, o contrário é que deve acontecer: primeiro devemos pensar nas razões a favor e contra uma determinada posição, procurar outros pontos de vista além do nosso, formas alternativas de solucionar o problema, por outras palavras, uma melhor compreensão global do problema. Só depois deste esforço honesto de compreensão é que nos é legítimo ligar-mo-nos emocionalmente a uma determinada linha de acção ou argumento. Mesmo que aquela a não seja, afinal, a mais correcta, ou o nosso argumento não seja o melhor argumento, pelo menos agimos da melhor forma que a razão nos aconselha: analisando os dados, escutando vários argumentos e pontos de vista, etc.

Essa reacção a quente às críticas que nos são feitas e a racionalização (procura de razões para defender a nossa posição) que a ela se segue são autênticos obstáculos ao Diálogo que importa anular para que aquilo que vai sendo dito ao longo do Diálogo seja devidamente interiorizado e analisado por todos e não apenas superficialmente ouvido (e não "escutado" que já implica compreensão) com o único intuito de rapidamente se rejeitar e contra-argumentar sem ter em conta toda a dimensão do problema. 
Para não cair naqueles tão comuns "debates de surdos" (discussões políticas, conversas de café, conversas da treta, etc.) quem quer dialogar deve saber encontrar um determinado ritmo de calma, ponderação e rigor lógico próprios de uma verdadeira "conversa filosófica", onde as intervenções de todos os participantes são devidamente pesadas e pensadas e onde todos os ângulos de um problema ou hipótese são aprofundados. 

Num Diálogo Filosófico as palavras não servem para nos expressarmos, agradar os outros ou passar o tempo. Num Diálogo Filosófico as palavras servem para pensar e, com essa função em vista, devem ser tratadas como "instrumentos de precisão", afiados e precisos, que temos o dever de estimar e apreciar usando-os apenas quando estritamente necessário. 

Como numa joalharia onde o ouro sobressai melhor sobre um fundo preto num Diálogo as palavras sobressaem melhor sobre um fundo de silêncio.  
A regra de "respeitar o silêncio" imposta por este exercício faz com que as palavras ganhem esse peso extra que é o peso da responsabilidade dos participantes em não "desrespeitar o silêncio" de todos. Essa regra permite, ainda, que sejam os próprios participantes a marcar o ritmo geral do Diálogo que ganha assim uma dimensão ao mesmo tempo interior e comunitária, subjectiva e objectiva, dispensando dessa forma qualquer regulação "maquínica" de um tempo cronológico, o tempo do relógio, que é sempre um factor estranho ao tempo do pensamento.


Objectivos: 
- Compreender melhor os vários momentos e ritmos presentes num diálogo assim como as várias resistências que cada participante leva consigo para o diálogo com os outros. 
- Aprofundar em grupo o processo de pensamento.
- Sentir o peso real que as palavras e as ideias têm quando encontram como pano de fundo o silêncio e não a habitual cacofonia interior e exterior que normalmente levamos connosco para todo o lado, inclusive para o Diálogo.


Exercício:

1) Antes de começar este exercício filosófico todos os participantes do diálogo devem tirar os relógios para que sintam o tempo de uma forma intuitiva e directa (i.e., não mediada por um aparelho medidor de tempo como o relógio).

2) É feita uma pergunta ao grupo, é-lhe pedido um comentário a uma frase, uma definição de um conceito, um conselho para um determinado problema, a resolução de um dilema, etc.

3) Qualquer um pode iniciar o Diálogo quando quiser e não há necessidade de se colocar o dedo no ar desde que todos respeitem a vez dos outros falarem. 

4) Sempre que um dos participantes fala há que respeitar um intervalo de silêncio que deve durar o mesmo tempo que este demorou a falar. Assim, se alguém falar durante 2 minutos todo o grupo deve respeitar mais 2 minutos de silêncio até que alguém possa voltar a tomar a palavra.

5) Um dos participantes é escolhido pelo moderador no início da sessão (pode ser o mais novo, o normalmente mais falador, etc.) para ficar calado durante todo o tempo que durar o Diálogo (cerca de 30 minutos) e ouvir atentamente as intervenções dos outros participantes. No fim deverá produzir uma síntese do que se falou, fazer uma análise crítica do Diálogo e contar ao grupo o que aprendeu com esse período em que foi obrigado a estar calado. 
Normalmente este é o lugar mais recompensador do Diálogo pois é aquele que permite um olhar mais objectivo sobre o mesmo. Aquele que mais se aproxima do "ponto de vista de Deus" que, segundo Espinosa, seria o lugar por excelência da Filosofia

Nota: Durante todo o exercício o moderador não deverá nunca intervir mas apenas controlará o tempo do exercício (não deixar passar muito tempo estipulado no início) e terá particular atenção aos vários obstáculos que vão surgindo ao diálogo, às mudanças de ritmo do mesmo, aos vários tipos de intervenções que forem surgindo (argumentos, perguntas, asserções, máximas, definições, etc.), à ligação (ou inexistência dela) entre as várias intervenções, aos conceitos mais importantes que forem surgindo. No fim do Diálogo e após o "participante silencioso" falar poderá, se quiser, dar conta dessas suas observações ao grupo com o objectivo de ligar e reconciliar os vários participantes sempre consciente de que a sua principal função é trabalhar para que o grupo se torne cada vez mais autónomo e a sua presença enquanto moderador seja cada vez mais dispensável.  

O texto que aqui vos deixo é da lavra da Chantal G. que participou neste Café Filosófico e que, segundo nos confessou, ficou bastante marcada por esta vivência interior do tempo do silêncio. Como todos nós, aliás.



Alice no País do não tempo



Queria um bilhete por favor. Ida simples.
O seu bilhete é com ou sem silêncio?
Quando vi, pouco depois, o comboio parar na estação da minha
imaginação, percebi a pergunta.
Subi e sentei-me, de pernas cruzadas, numa das carruagens, com mais
uma dúzia de pessoas.
O sino da realidade tocou então 22h00 e o comboio partiu.
A partir desse instante, perdemos a noção do tempo. Paragens, só mesmo
no ritmo do diálogo.
Torna-mo-nos recolectores, de falas e de silêncios, em sistema de troca directa.
Assumo que gosto de falar. Assumo que gosto de estar calada. Assumo
que sentir o silêncio, sem tic's nem tac's é um desafio.
O disfarçado letreiro «a minha verdade não é a tua verdade», na
estação de partida, tinha um propósito bem claro: agarrem-se a mim ou
abandonem-me pelo caminho.
Olhei para o bilhete da minha vontade e reparei que não tinha sido
obliterado. Posso fazer o que quiser, pensei.
À medida que o tempo sem tempo ia passando, as movimentações na nossa
carruagem fizeram-se sentir. Apenas o Filipe, o nosso «monge mais
novo» teve de permanecer quieto, excepto em pensamento.
Dado que estava fora do prazo de validade reservado aos monges, fui
espreitando as outras realidades, as das carruagens ao lado. Pelos
corredores de união, um fluxo migratório de pensamentos mais ou menos
persistentes.
Fui ouvindo...não existe uma só verdade? verdade será o mesmo que
realidade? pelo menos um de nós está errado. estará errado perante a
verdade do outro? é possível eu ter uma verdade? nós fazemos
aproximações à verdade mas ela existe. será que não vivemos na
verdade? a verdade pode ser factual ou emocional. na história existe
uma verdade. qual? a dos factos. individual ou colectiva? os dois. são
factos. um facto não é uma interpretação? há uma interpretação mas
também há o facto em si. uma interpretação não é uma verdade? é a tua
verdade. absoluta ou relativa? será mesmo verdade? relativa se for uma
verdade emocional e absoluta de for uma verdade factual. existem
verdades relativas e uma verdade absoluta. essa é uma verdade relativa
ou uma absoluta? a verdade é egocêntrica. a história não é
egocêntrica.  quem tem a verdade da história? de certeza que uma das
verdades está correcta. uma mentira pode ser verdade? a certeza de uma
verdade pelo menos não é uma mentira? pode ser. se eu estiver convicto
da verdade, porque não a hei de impor a outra pessoa? porquê impor? há
algo acima da verdade? o tempo. o espaço. em vez de impor, podes
persuadir. a verdade é infinita? se o tempo for infinito, a verdade
será infinita. a verdade e o amor são infinitos. as verdades causam
catástrofes sociais. por vezes a verdade é o pior caminho. a  verdade
nunca está em posse de ninguém. mas podes dizer «eu sou a verdade»,
como Jesus. a verdade é uma crença. a verdade é um privilégio. a
verdade dói. em que sentido? (neste momento fomos visitados pelo
riso...) quando chocar com as necessidades emocionais dos sujeitos.
mas aí estás a presumir que a tua verdade não é a do outro e que a tua
verdade é a absoluta. a verdade semeia-se ou colhe-se? as duas coisas.
(fomos de novo visitados pelo riso...) a verdade é efémera. é efémera
mas é eterna. isso não é contraditório? não, se se pensar na verdade
universal. é efémera nas verdades relativas.
Depois do tchu, tchu, o chiuuuu. Falou o nosso monge, através de impressões:
- o tempo de silêncio excedeu o tempo de fala;
- muitas perguntas foram respondidas com outras perguntas;
- houve um desvio face à pergunta inicial (o letreiro disfarçado);
- existiram dois momentos: o da verdade factual ser diferente da
emocional e o facto da verdade ser egocêntrica.
Novo recolhimento do nosso monge e mais fluxos migratórios entre
carruagens. Assumo que me portei mal. Comprei bilhete com silêncio e
tive duas ânsias de fala.
Assumo que gosto de falar. Assumo que gosto de estar calada. Assumo
que sentir o silêncio, sem tic's nem tac's me deixou a pensar.
Saí, a custo, do comboio e vi as carruagens partir.


Chantal

Domingo, 16 de Setembro de 2012

125º CAFÉ FILOSÓFICO - A MORTE É UMA CERTEZA



Este foi o primeiro Café Filosófico da época 2012/2013 e, por esse motivo, no início tive algum receio de que se sentisse alguma "ferrugem filosófica" por parte dos participantes mas, sobretudo, por parte do moderador (Eu) que nos últimos dois meses estive mais ocupado com puericultura que com filosofia. Entre as fraldas e as cólicas da minha filha Francisca não pude dar tanta atenção a Descartes, Kant ou a Wittgenstein que, com certeza, não se importaram nada com esta minha falta de atenção... mais do que justificada.
De qualquer forma já sentia falta destes encontros filosófico. Cada vez mais sinto que preciso dos outros para pensar. 

Para assegurar algum rigor argumentativo neste período pós-férias escolhi para a sessão de hoje um exercício em que as regras e as intervenções dos participantes se estavam bastante bem balizadas. Para replicar o "jogo dialéctico" socrático pediu-se aos participantes que nas suas intervenções respeitassem a ordem: "Tese - Pergunta - Resposta". Sendo que os participantes da sessão faziam alternadamente o papel de Sócrates e dos seus interlocutores.

A sessão começou com cada participante a pensar num juízo que considerasse uma verdade absoluta.
Entre as várias hipóteses avançadas a escolhida foi a da Filipa, uma caloira dos Cafés Filosóficos:

"A morte é certa." 

De seguida os participantes foram convidados a problematizar esta "verdade absoluta", ou seja, a fazer uma pergunta que lhe levantasse um problema.
Foram avançadas várias propostas e cada uma delas foi analisada pelo grupo no sentido de procurar saber se levantava ou não um problema à tese "A morte é certa." 

De todas as propostas avançadas aquela que o grupo escolheu pelo seu carácter problematizador foi a do Tiago: "Há provas disso?"

Neste momento tínhamos então uma tese inicial - "A morte é certa" - e uma pergunta a essa mesma tese - "Há provas disso?" 

Cabia agora à Filipa responder à questão do Tiago:
"Há provas disso porque as pessoas morrem, ou seja, até hoje sempre morreram.."


Vou deixar o leitor tentar descobrir se há algo de errado com o argumento da Filipa.
"A morte é certa, e a prova disso é que as pessoas morrem, i.e., até hoje sempre morreram."


O que acha deste argumento? Deixe-nos um comentário com a sua opinião.




Quarta-feira, 6 de Junho de 2012

122º CAFÉ FILOSÓFICO - O SILÊNCIO



Durante os 5 minutos iniciais deste Café Filosófico permanecemos calados, em silêncio. Não com o intuito de reflectir, meditar ou mesmo relaxar, mas simplesmente para "estar no silêncio". Todos aproveitámos essa rara oportunidade para não ouvir nada nem ter de dizer nada. E assim permanecemos... calados... durante 5 minutos.
Depois deste período pediu-se aos participantes que fizessem uma pergunta que nos fizesse pensar sobre o silêncio.

Este Café Filosófico foi mais temperado e calmo, menos dialéctico e combativo que o habitual. Foi uma sessão em que houve mais Diálogo que debate, onde os participantes estavam mais predispostos a escutar que a falar e onde se sentiu mais uma partilha comum de significados que uma confrontação de diferentes pontos de vista. Encontros como este são raros numa época em que poucas pessoas sabem (e querem) realmente escutar os outros mais interessadas que estão em anunciar ao mundo as suas opiniões, os seus valores, as suas certezas.

A qualidade deste Café Filosófico deveu-se certamente às pessoas que nele participaram. Todos eles assíduos do Café Filosófico, alguns deles estão comigo desde o início nesta aventura de trazer o Diálogo Filosófico de volta à cidade: a Chantal, a Daniela e o Tiago. Foi uma sessão em que o grupo praticamente dispensou o moderador (senti-me mais interveniente no diálogo que um seu árbitro, como é habitual) e construiu e aprofundou sozinho os vários temas que foram surgindo no decurso do Diálogo. 



Sessões como esta fazem-nos ver a importância da prática continuada e consciente do Diálogo com os outros. Essa prática aguça-nos os sentidos, afina-nos a sensibilidade para o Diálogo e apura-nos o gosto em escutar o que os outros pensam. 


Assim vale a pena continuar!






Vídeo do 122º Café Filosófico



Café Filosófico sobre o Silêncio from Tomás Magalhães Carneiro on Vimeo.







Texto de Chantal G.


Cheguei depois da hora marcada. Ele também, aliás foi o último a chegar.
Foi recebido com expectativa depois do Tomás nos ter perguntado: o que
nos vem à cabeça quando  pensamos em diálogo?

Ouvi Troca, Conversa, Dar e Receber, Partilha, Confronto mas de facto
não te ouvi citar a ti, com os teus fatos alinhavados de ausências.
Chegaste, contudo, pouco depois vestido de fato de gala, aquele que
tiras raramente do armário. Assenta-te tão bem e portanto...
Foste, por todos, recebido Silêncio.


Cinco minutos na tua companhia. Consentida.


Fiquei a observar todos em meu redor e imaginar que tipo de homenagem
te poderiam estar a prestar. Alguns rostos pensativos, outros sérios.
Foste o último a chegar e o primeiro a partir. As palavras chegaram
para nos ajudar a pensar em perguntas que nos permitissem reflectir
sobre ti, Silêncio:
- porquê tanta seriedade no silêncio? (Chantal)
- devemos cultivar o silencio? (Tiago)
- qual o teu espaço? (Eduardo)
- porque nos constrange o silêncio em grupo (Daniela)
- existe verdadeiramente silêncio? (Manel)
- porque há silêncios desconfortáveis? (Lara)
- no caos pode haver silêncio? (Filipe)


A primeira questão analisada foi a que se prendia com a seriedade no silêncio:
- por ser a nossa face neutra quando não dialogamos. Seriedade =
Neutralidade (Tiago)
- pelo facto da pessoa se virar mais para dentro. Seriedade =
Interioridade (Eduardo)


Seguiu-se a pergunta da Lara, qual o motivo para haver silêncios
desconfortáveis?:
- porque existe uma diferença entre o Eu activo e o Eu passivo face ao
silêncio, o Eu que controla/consente o silêncio e o Eu que
«padece»/não controla o silêncio (Chantal)
- porque há uma imposição do silêncio (Eduardo)
- porque existe uma distância emocional entre as pessoas (Tiago). Para
ilustrar o seu pensamento, o Tiago citou-nos Vitorino Nemésio «O amor
é quando o silêncio não pesa»
- porque existe/sentimos uma estranheza (Lara)
- o silêncio é doloroso quando existe mentira, constrangimento, quando
fica algo por dizer (Eduardo)
- quando nos identificamos com a(s) pessoa com quem estamos a tentar
falar. Nesses casos, o silêncio colide com a vontade de comunicar
(Daniela).


Mas afinal, temos assim tanta vontade em comunicar? (Tomás), Qual a
diferença que existe entre nós e os meus amigos do Alentejo «que vivem confortavelmente o silencio»? (Tomás)
- a ligação com o meio onde estão inseridos, a proximidade, o ritmo de
vida (Eduardo)
Nós citadinos, temos capacidade de comunicar sem ser verbalmente? (Tomás)
- a velocidade dos espaços é diferente. A atenção às outras formas de
comunicação (para além da verbal) requer tempo, o tesouro perdido dos
citadinos (Chantal)

Retomando a análise das perguntas iniciais, analisamos a do Tiago:
devemos cultivar o silêncio?:
- sim, porque ajuda a pensar melhor (Tiago)
- sim, pela pausa, que proporciona bem-estar (Manel)
- sim, pelo bem estar (Lara)
O Tomás pediu-nos para problematizar a posição do Manel:
- qual a duração da pausa? (Chantal)
- pausa de quê? (Tiago)
- os cinco minutos de silêncio iniciais foram uma pausa? (Filipe)
O Manel escolheu responder à questão do Tiago, à qual respondeu com «pausa da vida»


A última questão escolhida foi a do Eduardo que evoluiu para: 
Qual a ligação entre o silêncio e o espaço individual?
- um aguçar dos sentidos / conhecimento (Lara)
- um desprendimento, um esvaziar do espaço individual (Eduardo)
- um efeito fertilizante (Chantal)


Desta vez, e por não termos abordado este ângulo na nossa sessão, o
Tomás deu-nos um TPC: pensar na ligação entre o silêncio e o diálogo.

Fizeste-me sorrir enquanto estiveste aqueles cinco minutos connosco.
Recordei-me e recordei-te na pré-escola, quando nos sentavam em
círculo no átrio grande e nos pediam para brincar ao «jogo do
silêncio»... Volta, mais vezes.


Chantal G.